Quem vê o britânico Paul Boggie hoje, membro da Guarda Escocesa do Palácio de Buckingham e diretamente vinculado à proteção da rainha Elizabeth 2ª não faz ideia de sua extraordinária história de superação e mudanças radicais de hábitos rumo à uma vida mais estável.
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Por anos, Paul foi viciado em heroína e chegou a perder a vontade de viver.
Como último esforço, mudou completamente seu estilo de vida, juntou-se ao Exército do Reino Unido e hoje faz parte da guarda de Buckingham, que protege as residências reais.

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Juventude de vícios
Quando tinha 18 anos, Paul teve uma briga com seus amigos. Certo dia, um deles lhe ofereceu drogas como “pedido de desculpas”, e ele aceitou.
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“Estavam todos amontoados em um pequeno Fiesta e eu só vi o lampejo da folha de alumínio, mas não sabia o que era”, lembrou o britânico, que começou a usar heroína em Craigentinny, um subúrbio de Edimburgo, na Escócia, onde morava.
“Um deles saiu e me disse que estavam perseguindo o dragão. Não havia agulhas, colheres ou cintos. Quando entrei no carro, o cheiro era horrível, como peixe podre. É assim que cheira a fumaça de heroína”, descreveu.
Nos meses seguintes, ainda que não se considerasse um viciado, Paul adquiriu uma dívida de 16 mil libras (R$ 122 mil) para manter o acesso ao vício.
A quantia emprestada não era compatível com seu trabalho como carteiro. Ele usava heroína todos os dias, quase sempre no banheiro do trabalho.
“Não me via como o estereótipo do viciado em heroína. (A droga) não havia afetado meu corpo”, explicou.
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Escondendo o uso no dia a dia
Paul usava todo tipo de desculpa para ocultar o uso de drogas. Num primeiro momento, seus familiares e seu empregador não ficaram desconfiados.
O carteiro justificava os olhos avermelhados (um bom indicativo do vício) como sintoma de rinite alérgica. “Não pensei que fosse viciado, não levei isso a sério”, lembrou o rapaz, atualmente com 42 anos e residente de Fife, no leste da Escócia.
Uma hora o castelo de cartas iria ruir. Certo dia, uma operação antidrogas da polícia o deixou sem conseguir comprar heroína por oito horas, e ele ficou “apavorado”.
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“Lembro-me de quando finalmente peguei o medicamento, me senti incrível. Todas as dores físicas, os calafrios, o nariz e os olhos vermelhos desapareceram”, descreveu. “Mas então pensei: ‘Ah, não, acho que acabei de assinar minha sentença de morte'”.
“Foi assim que percebi que corria perigo porque adorava heroína. Naquele momento, caiu a ficha de que eu era um viciado”, enfim reconheceu o britânico.

Decadência e recomeço
O uso recorrente e constante da droga começou a afetar Paul. Logo, ele perdeu o emprego e a confiança das pessoas. Em seguida, perdeu peso dramaticamente e disse estar “esperando para morrer”.
“Desisti de viver. Estava apenas focado em conseguir heroína. Estava preso sentindo pena de mim mesmo e a heroína estava tirando tudo de mim. Felizmente, na maioria das vezes meus pais me deixavam ficar na casa deles, mas tive que dormir sob a escada”, relembrou.
“Você não sente dor ou frio porque fica feliz onde quer que esteja quando toma heroína”.
Ao todo, foram 13 tentativas de largar a heroína, com sucessivas recaídas. Na décima-quarta tentativa, conheceu um curso na ONG Cyrenians, voltada para pessoas em situação de rua.

“Deixava todas as minhas drogas e heroína na mesa com um chá com leite que bebia para engolir meus comprimidos. Mas (um dia) passei por ali, encostei o nariz no espelho do meu quarto e me perguntei: ‘O que é o que você quer?'”, lembrou.
“Olhei para mim mesmo e disse, ‘Não volte a pedir heroína de novo, porque você não vai tê-la’ e foi isso.”
A partir daí, Paul garante, nunca mais usou a droga.
Guinada radical
Nos anos seguintes, o rapaz recuperou o peso e conseguiu um trabalho estável em uma rede de supermercados.
Com uma rotina mais estável, Paul foi aprovado na Scots Guards quando tinha 30 anos. E mais: apenas seis meses depois de entrar no Exército, ele foi destacado para trabalhar no Palácio de Buckingham. Uma vitória e tanto!

“Tinha parado de usar as drogas, mas ainda sentia que faltava algo na minha vida”, disse.
“Quando entrei para a Guarda Escocesa, fiquei muito orgulhoso do que havia conquistado. Lembro-me de ter pensado: ‘Uau, alguns anos atrás eu era viciado em heroína e agora estou fazendo a segurança do palácio”.
Novo vício (vencido) e livro publicado
Foram cinco anos no Exército até Paul ser transferido para um campo de treinamento na Inglaterra. O objetivo era prepará-lo para uma viagem ao Afeganistão. No meio do caminho, entretanto, o caminhão em que viajava bateu, ferindo gravemente as costas do soldado.
Semanas após receber alta no hospital, os médicos prescreveram analgésicos para sua coluna, nos quais ele se viciou – um provável reflexo dos anos em que usou heroína.
Era o início de 2020, quando o governo decretou quarentena para frear o avanço da Covid-19. Sob isolamento social, Paul escreveu o livro Heroin to Hero (“Da heroína a herói”), cujas receitas foram integralmente doadas às pessoas que vivem em situação de rua.
No livro, escrito com profunda franqueza, ele conta como se livrou da heroína e como essa experiência o ajudou a se livrar do vício em analgésicos também.

“Acabo de escolher viver com a dor em vez de tomar os comprimidos”, confessou na obra.
De lá pra cá, Paul tem dado palestras em escolas para conscientizar os jovens sobre os perigos do vício, além de visitar presídios para conversar com detentos.
“As drogas são ruins, mas o vício é horrível”, resumiu. “É difícil romper um vício. Você acaba aceitando seu destino e pode acabar morrendo como muitos dos meus amigos”, concluiu.
Fonte: Metrópoles
Fotos: Arquivo pessoal
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